Ficou estupefacto, sem saber o que fazer. Deixou os pensamentos correrem, hesitante entre voltar para casa e ir pedir desculpa. Desculpa, porquê? Recordava cada palavra que dissera, tal como cada expressão da cara dela.
O que dissera, afinal, para que ela fugisse quase à beira das lágrimas?
Um pouco mais refeito, subiu as escadas, decidido.
Não bateu. Não tinha coragem. Encostou-se, simplesmente, esperando e à escuta.
A luz apagou-se automaticamente. Fechou os olhos e deixou-se escorregar.
E, no momento seguinte, ela abriu a porta e olhou para ele, olharam-se no fundo dos olhos, no fundo da alma, e por fim perceberam que aquela busca tinha terminado, que nada mais fazia sentido que não...
Abriu os olhos, como que acordando de um sonho. Ouvira um barulho no interior do apartamento. Aproximou o ouvido da porta e deixou-se escutar.
Ela chorava, mas não era um choro calmo ou cuidado, não se assemelhava a o que quer que fosse a que alguma vez tivesse assistido. Era um pranto como nunca ouvira antes. Era cruel, torturoso, estava misturado com gritos e soluços, era um misto de total desespero, fúria e tristeza. E distinguia também o som de um engasgar, um afogar, afogar em quê? Ela estaria bem? Pergunta parva, bem não estava, bastava para alguém escutar aquela tormenta para perceber que não poderia estar bem, mas não era isso, ele queria dizer fisicamente, ela parecia asfixiar a cada soluço e
e então gritou, do fundo da garganta e ainda mais, do fundo da alma, como se naquele momento o mundo e toda a sua desgraça a tivesse percorrido e escolhido como canal para libertar e expressar as suas agonias.
Sem aguentar mais, fugiu dali.
2:15 AM
Fechou os olhos com força, mas não era uma imagem que o atormentava.
Era aquele grito, aquele choro. E a culpa, porque parecia ter sido ele a desencadear tudo. Perguntava-se porquê, continuamente. O que teria acontecido?
Não conseguia adormecer e, na verdade, não queria nem fazia por isso.
Deixou-se a pensar nela e, sem saber porquê, chorou.
7:33 AM
Nem se atreveu a abrir a porta. Ficou apenas à espera, atento.
Algures uma chave rodou.
Mas era nos andares de baixo, não podia ser ela.
Esperou e esperou.
E esperou.
E a noite em claro deixou-o adormecido no chão.
3:40 PM
Eram horas de ela chegar. Ficou imóvel durante mais dez minutos, dez longos minutos de ansiadade, pânico e agonia, um aperto no peito.
Ela não chegou.
Será que saíra sequer de casa?
Tomou coragem para subir.
Sem se atrever a respirar, encostou-se à porta. Não havia piano nem violino nem nada reconhecível, mas conseguia distinguir algum ruído de fundo acusador de movimento. Suspirou de alívio. Significava que não desmaiara ou pior...
Estremeceu e voltou ao apartamento.
9:21 PM
Mais tarde ou mais cedo teria de fazer alguma coisa. Pedir desculpas, ao menos. Só esperava que ela, dessa vez, fosse um pouco mais razoável.
10:23 PM
Mas o quê?
11:23 PM
E porquê?
12:40 PM
A resposta era tão óbvia que o embaraçava.
12:50 PM
Ele amava-a.
Amava-a realmente por coisa nenhuma.
Mas realmente.
1:00 PM
Talvez fosse isto que ela precisasse de ouvir..?
Que era amada?
Que não estava sozinha no mundo?
Que alguém se preocupa e quer saber como está a cada hora.
Porque ela era a pessoa mais importante
Parou a torrente de pensamentos nesse mesmo segundo.
Mal conseguia acreditar, seria que aquela música vinha mesmo do piano do dela?
Seria ela a tocá-la?
1:10 PM
Desceu as escadas. A música que ela tocara descansara-o profundamente. Era alegre e não tinha o mínimo rasgo de tristeza. Era quase infantil. o que quer que se tivesse passado, já tinha passado e ela já estaria bem.
Com um débil sorriso, entrou em casa e foi à janela ver a Lua que mal se via.
1:19 PM
...
6:21 AM
Acordou cedo. Esperava-o uma semana dura e ele não tinha tempo a perder. Lamentavelmente, não a conseguiria ver. Com um pouco de sorte, poderia ouvi-la a tocar quando regressasse de noite.
ESSE DIA
DIA SEGUINTE
DIA DEPOIS
DIA POSTERIOR
8:35 PM
Cruzou-se com um polícia enquanto subia até ao apartamento. Estranhou a presença. Espreitou para os andares superiores e assustou-se com a multidão.
Reconhecia parte dos outros moradores do prédio, mas não poderia imaginar o que os concentraria ali.
Subiu o que lhe faltava e aproximou-se das duas mulheres mais próximas que segredavam.
- Boa noite...
- Boa noite, meu jovem, já viu a desgraça que se abateu aqui mesmo?
- Ainda não sei o que é, eu...
- Pois, olhe, é uma história muito lamentável, muito lamentável, é preciso estar-se muito desesperado para fazer uma coisa destas, é que não cabe na cabeça de ninguém, ainda para mais alguém tão jovem, olhe, deveria ter a sua idade.
- Mas o que aconteceu, afinal?
- Ah, meu jovem, olhe, você sabia de uma rapariga estrangeira que vivia no andar acima deste?
- Acho que era da Europa - comentou a outra mulher.
- Olhe, fosse de onde fosse, não sei o que lhe deu na cabeça para ter feito isto.
Começou a desesperar.
- Mas o que é que ela fez?
- Oh, meu caro, parece que a dita moça tomou comprimidos para dormir em dose suficiente para matar um elefante, veja-me só, uma rapariguinha tão nova, com tanta vida pela frente e...
...
..
...
..
...
..
...
..
...
Hoje em dia, ele fica perguntando a si mesmo várias questões que ficaram por esclarecer.
Em primeiro, a história dela, que ainda o intriga, as inocentes palavras que lhe disse provocaram um tal efeito e torrente de emoções que o confundem ao extremo.
Ela deixou pouco, como nota de suicídio, apenas um envelope com a renda do mês. E o cadáver evidente e a casa mobilada e
e o coração dele partido, destroçado pela culpa que nem sabe se foi ou não sua.
Nova Iorque
2007
7:37
Eram horas. O despertador não tocara, estava atrasado. O pânico começou a instalar-se, um pânico totalmente irracional. Negando todas as forças do seu corpo que o empurravam de volta ao conforto dos lençóis, atirou-se para a entrada. Abriu a porta e ainda conseguia ouvir os ecos de um saltitar degrau a degrau. Saiu para o corredor e debruçou-se no corrimão. Nem sequer a sombra se via. O som, porém, parecia estar mais perto.
"Ups"
Não, ela não estava lá em baixo, vinha ainda a descer do apartamento. Vinha a cantar Pink Floyd num sussurro. Trocaram um olhar. Mais uma vez ela era aquele encanto vazio de vida, como se a alma tivesse desaparecido ou estivesse numa permanente tristeza profunda. Ele tencionava ter dito algo, mas, entretanto, já ela tinha passado aos outros andares.
Olhou para si mesmo e para a figura ridícula, debruçado, em peúgas uma de cada cor e com o pijama que a avó lhe oferecera no natal, com cara de sono. Mas, ao menos, naquele dia vira-a.
9:53
Pegou na guitarra e magicou com as cordas. Não gostava muito de Pink Floyd, mas isso não importava.
Seria Pink Floyd que aprenderia, se isso lhe agradasse. Mudaria tudo o que fosse preciso, tudo o que ela quisesse. Ela enfeitiçava-o de um modo que ele ainda não conseguia entender. Talvez fosse o olhar inexpressivo, impossivelmente inespressivo. Oh, sim, ele sabia que havia um mistério nela que tentava disfarçar, mas ninguém poderia ser assim tão oco de emoções. Esperava um dia que ela podesse partilhar tudo com ele - e ele seria o rapaz mais espiritualmente completo do inteiro planeta.
Já sabia as rotinas dela de cor, sabia os gostos musicais, sabia que tocava piano e violino, sabia que vivia três andares acima e que insistia em ir pelas escadas, apesar do elevador. Sabia que tinha problemas em adormecer, que o Sol aumentava a dor de cabeça. E parecia ter medo da Lua.
5:40 PM
Não tinha coragem de subir pelo elevador. O som inundava as escadas. Aquela melodia hipnotizante de violino que sabia exactamente de onde vinha era demasiado embriagante para se dar ao luxo de não escutar, de não saborear. Fez o mínimo de barulho ao pisar os degraus. Quando chegou ao seu andar, sentou-se no tapete de entrada, escutando. Um dia, talvez aquela música fosse para ele. Talvez já fosse. Nesse dia, seria mais feliz do que alguém que jamais tivesse conhecido.
7:21 PM
Ela devia estar a acabar o jantar. Subiu com cuidado, para fazer o mínimo barulho. Sentou-se nos últimos degraus e ouviu o som de cadeiras arrastadas. Um eco de madeira a bater contra madeira. E depois, depois aquela música. Imaginava-a, de olhos fechados, tocando o que já sabia de cor, o que tocava todas as noites. Não haveria uma alma naquele mundo que se atrevesse a dizer que era indiferente àqueles momentos de génia musicalidade, obras-primas das obras-primas, o fabuloso concerto da vizinha de cima. Fechou os olhos e, sem vergonha, deixou as lágrimas correrem.
3:24 AM
Não conseguia pensar claramente nem em mais ninguém. Nem em nada. Custava-lhe a vida para se concentrar e deixar de pensar nela parecia um crime. Mas não podia continuar a viver aquele amor apenas a vê-la passar, a ouvi-la a tocar, a contar-lhe os passos.
Nessa noite, enquanto passava por mais uma vaga de imparáveis insónias, tomou a decisão: no dia seguinte iria falar com ela. Já estaria em casa quando ela voltasse e aquele momento era tão perfeito como qualquer outro.
*
3:45 PM
Viu a figura dela atravessar a rua. Inspirou fundo e ganhou coragem. "Pronto?" perguntou a si mesmo. "Não" e avançou para a porta. Ouviu-a a subir as escadas, o espaço que partilhavam. Rodou a maçaneta quando soube que ela estava no último lance de escadas, antes de...
- Olá!
Ela olhou confusa para ele e fez um aceno.
- Hum, sou teu vizinho, vivo aqui.
Ela encolheu os ombros.
- Reparei que sabes tocar violino. Queres passar um dia por aqui? Eu tenho uma guitarra e sei algumas coisas...
Ela abriu muito os olhos mas continuou calada.
- E também que gostas de Pink Floyd. Eu sou mais Nirvana, mas...
Agora, sim, parecia genuinamente assustada.
- Tem calma. Foi alguma coisa que eu disse? Desculpa, hum, como é que te chamas mesmo? Eu adivinho, espera. Lara, Katherine, Joanna, Sophia...
Dito isto ela fugiu a correr, a soluçar, sem mais explicações.
"Tarefa 4
Escrever um livro acerca de uma personagem que é forçada a voltar atrás no tempo."
Viagens no tempo? Perdoem-me, mas hoje não estou com a disposição.
Mas podia...
Cá vai.
"
Atrás da Porta
Rodou, cautelosamente, a maçaneta. Ao comando da sua mão, o mecanismo da fechadura cedeu com suaves guinchos. Com um último grito, o trinco abriu-se completamente. Puxou-o para si, até aparecer uma pequena fresta entre porta e ombreira e aí largou devagar a maçaneta, deixando-a percorrer o caminho de volta para o lugar original, o mais silenciosamente que foi capaz. Pousou os dedos na fresta de escuridão ainda maior que aquela onde estava e forçou a porta a abrir um pouco mais. As dobradiças rangeram e chiaram e ecoaram por todo o espaço. Hesitou e pôs-se à escuta.
O silêncio era estilhaçado e inundado pela respiração ressonosa e ritmada não muito distante. Com um certo alívio, atreveu-se a dar um primeiro passo. A madeira sob os seus pés soltou um desgostoso queixume de desespero ao amparar o peso do seu corpo, como que estivesse a ser violada. Lançou-lhe um olhar cego reprovador e dirigiu-lhe um pensamento, "Deixa-te de exageros". Saiu do quarto com mais um passo. A madeira insistia em ranger, mas o ressonar continuava a sobrepôr-se a qualquer outro ruído. Aproveitou o som de fundo para encontrar um ritmo intermédio entre os passos e a obscena respiração. Percorreu os corredores naquela sintonia.
Pousou delicadamente o pé descalço no primeiro degrau da escadaria. Agarrou-se ao corrimão para abrandar ainda mais a descida. Havia um eco que se soltava cada vez que a pele se desprendia da pedra e cada degrau era uma espécie de tortura. Sentiu um arrepio ao pensar que a qualquer momento o seu vigilante o poderia acordar, que a qualquer altura poderia ser apanhado.
O primeiro piso abundava de tapetes que mal faziam ruído. Com o passo algo mais ligeiro, dirigiu-se ao fundo dos corredores labirínticos, até encontrar aquele canto afastado de possíveis visitas e olhares curiosos.
Estava ali, estava à frente daquela porta. Bom, e agora? Queria abri-la, mas aquela não parecia ser a altura certa. Encostou o ouvido e susteve a respiração. Estremeceu. Estaria a ouvir bem? Que poderia querer dizer aquilo? Uma vaga de pensamentos atravessou-lhe a mente até ser cortada pela sombra ainda mais intensa que a escuridão, erguida atrás de si."
Posso escrever livros sobre o que quiser, se me apetecer. Depois a editora é que escolhe se é bom para levar às prateleiras ou não. Aí está um desses começos:
"Fica aqui desde já dito que nada direi nas páginas seguintes, é o melhor assunto para se discorrer, o nada, porque podemos dizer tudo, assim farei, será este o livro: páginas e páginas brancas que o leitor não saberá ler, mas o que importa não é tanto ler, leitor, é mais o que lhe dizem essas páginas brancas. Este livro não é dos que se lê, é o que inicia as sensações e depois é cada um por si, por isso que quanto tanto fazia que todo o resto estivesse em branco, se o leitor soubesse sentir, não precisava da minha sugestão para o ir guiando, talvez já nem escute o que lhe digo, talvez estas palavras sejam já música de fundo dos seus pensamentos, um cenário que está lá, mas é o leitor que nele não está, mas eu, enfim, tenho de seguir por todo o discurso, quanto trabalho me poupava poder compor o livro todo em branco, todo em páginas brancas, que são tormenta, garanto que são, e também surpresa e depois toda a torrente de sensações, basta experimentar, comprar um livro com defeito de impressão, acontece de tempos a tempos, nos dias que correm já os livros não tem o cuidado e carinho humano de outrora, nem quando são impressos, nem colados, nem quando são transportados, nem quando os colocam na prateleira, não, o único a dar carinho a um livro em particular é o leitor que pega nele com curiosa atenção, ou talvez com pretexto de continuar a pensar, em busca de uma confirmação, de uma dada música de fundo que o ajude nessa viagem de reflexões. Não é preciso comprar para dar um pouco de atenção particular a um livro, basta tê-lo na mão e na mente, mas um livro nem precisa de nada disto, nós é que precisamos deles para assegurarmos que tudo continua e nada se perde, um livro é facilmente repetido e repetido, aliás, é isso que se faz na impressão, repetir um livro até à exaustão.
Este livro merecia ter as páginas todas em branco, basta-lhe uma frase para fazer sentido, o resto é só repetido e mais dizer do mesmo, é um pensamento que a nenhures conduz, a este livro bastava-lhe essa frase que bem podia ser o título, e todas as restantes páginas em branco, para fazer viajar o leitor, enfim, já o disse, talvez até fosse do interesse do indivíduo começar a escrever sobre branco e aí ainda se confirmaria mais esta ansiedade do branco a exigir pensamento, do vazio que nos faz encher páginas.
Enquanto escrevo, corre o mundo à volta de si, ele indiferente a mim e eu a ele. Não gosto de princípios, nem de meios nem de fins. Os princípios porque são a razão da desgraça. Sem princípio, não haveria sofrimento nem felicidade, não haveria existência e ninguém se teria de preocupar. O princípio torna-se inevitável quando a existência se mostra evidente, pois aí já nós estamos no meio, à espera do fim. Sem princípio, nem meio nem fim haveria, mas eu já comecei este livro e já vou eu no meio, mas o princípio foi brusco, para quase se não notar, não lhe dêmos muito ênfase, senão ele convence-se de que é alguém. Também fim não terá, porque o nada é vivo para sempre, menos que o nada só o que não existe, o fim deste livro será quando deixarem de existirem páginas em branco. Escrevo-te conforme a minha consciência vai ditando e ela parará de me atirar com novas frases só quando eu morrer. Se o livro não visse luz do dia para além da minha, morrerá comigo, senão, morrerá com o leitor atento e preocupado.
Sentir que vivo faz-me as maiores confusões. Cada respiração, gesto, pulsar é como se fosse contra alguma regra fundamental do Universo. Existir deixa-me desconfortável, como uma cadeira desconfortável. E pedem-me que continue. Exigem-mo. Dizem que ainda vivi a menos, que tenho muito pela frente. Mas do pouco que vivi já me chega para fartar, a cada segundo crio e a cada momento me exigem mais, a cada segundo invento, mais um novo princípio, um novo começo. Eu quero parar, cessar este mau estar para sempre, nunca mais voltar, porém, dizem-me que me cale e que continue sem reclamar, porque tenho tudo para ser uma pessoa feliz. Quem lhes disse que o quero ser?
A felicidade está sobrevalorizada, tal como a sua busca. Coloca-se como o objectivo principal de muitos. Desespero quando penso no modo como pensam na felicidade. É triste ver pessoas por aí tão enganadas consigo mesmas, procurando naquilo que lhes dizem que trará algum bem. Em primeiro, é uma cruzada perdida e condenada desde que surgiu: a felicidade não existe, o que há é alegria, que, por sua vez, não é um posto nem um porto, é um esgar momentâneo de que só nos apercebemos quando passou.
De dia para dia me repetem que o objectivo é manter a continuidade da espécie. De dia para dia me fazem questões estranhas, se gosto de homens ou de mulheres ou de ambos e eu fico sem resposta, porque gosto de todos e não gosto de nenhum, amo-os mas não me atraem. Se se pudesse fazer um terceiro género que não o masculino nem o feminino, um que não se encaixasse nos estereótipos e que não tivesse papel na reprodução, seria a esse que eu pertenceria, decerto, pois não me sinto parte de nenhum destes conceitos que distinguem. Sinto-me sendo um ser pensador e um ser consciente de si mesmo, nada mais. Que me importam essas distracções?
Para mim são abomináveis, tanto que o maior mercado de prazer é o maior mercado de sofrimento. Quantas crianças abusadas neste mundo, até lhes perdemos a conta, só quem sofre sabe. E criticam-me por ser como sou.
Amo quer mulheres quer homens, pelo que são, não pelo género ou aspecto. Isso são pormenores que pouco me importam.
Passo os fins-de-semana em desespero. Esta vida que levo repete-se de um modo tão igual de dia para dia que os grandes acontecimentos abrem feridas que nunca mais cessam. Sempre me custou fazer amigos, tanto mais quando são tão diferentes de mim, gostos tão diferentes, ideias e ideais tão distintos, sem um mínimo sentido de moral nem sequer um esforço de estarem atentos ao mundo, preocupando-se com a própria esfera e o resto que vá passear. Sou sempre alguém estranho nos grupos, comporto-me de forma esquisita. Não me talhei para fazer parte de uma multidão, mas é nela que me mandam viver toda a parte útil do meu dia. Chego a casa e a caneta espreita ao lado, como que suplicante, mas a mão preguiçosa não se encaminha até ela. Aliás, existem todos aqueles livros de estudo que me lembram de que me dizem que os estudos e o curso são muito mais importantes que as palavras que posso escrever a qualquer lugar. Os professores vão deambulando nas suas matérias, os colegas acompanhando, eu sempre ao canto, ao fundo da sala, distante, os pensamentos virados para o caderno e quem sabe uma nova ideia que começa a esboçar-se, outras vezes apenas um pensamento que merecia registo, tomo nota como que a um apontamento, fica o professor contente por me ver a tirar notas, ficam contentes os meus colegas por me verem a agir normalmente, mas pudessem eles saber de quem realmente sou. Pergunto-me se fugiriam, se me internariam.
O manicómio é um lugar onde das pessoas mais lúcidas do mundo se encontram. Lúcidas, criativas, apelidadas e etiquetadas como lunáticos, são um povo próprio sem oprimidos, onde cada um é ele próprio, magia desta existência. Será, decerto, um dos lugares mais encantados do mundo, onde os incompreendidos da sociedade, os que se atrevem a pensar mais além se debruçam sobre os próprios pensamentos, não querendo saber de ninguém mais, sem ninguém que os aborreça ou distraia ou aponte o dedo ou mande fazer tarefas confusas como ir às compras.
Ir às compras é um verdadeiro assombro, um pesadelo. Olho para a prateleira que me devolve o olhar inquisidor. É enorme, comparada comigo. Tem uma data de produtos repetidos em massa, esmagando-me só pela sua presença. Hesitante, estendo o braço, apoderando-me de algo que não é meu, colocando numa cesta que não me pertence, olho para os corredores infinitos como se fosse para o fundo de um poço, falta-me uma pedra para atirar ao fundo. Tenho de obedecer a um grande conjunto de regras estranhas que todos parecem ter ensaiado, menos eu, bolas, esqueceram-se de me entregar o guião, vim para esta peça sem saber as minhas deixas, agora o melhor é meter-me atrás de alguém, fazer como eles fazem, pousar as coisas no tapete dos solavancos, alguém que me faz perguntas absurdas, troco uns míseros discos de metal ou pedaços de papel por tudo o que levo para casa e ainda me ensacam tudo em plásticos inúteis, tanto quanto o papelinho alinhado cheio de informações que ninguém lê que entregam como conclusão deste processo macabro. Consumir e comprar é penoso. Saí do mercado, mas não do centro comercial, ou seja, ainda tenho de enfrentar outros perigos. As luzes encandeiam-me, a multidão aperta-me, os nomes das lojas fitam-me, são como que uma sentença que me reprova por a ignorar, são como um dedo surgindo, julgando-se superior, e esmagando o pobre insecto que sou eu. É tudo demasiado insuportável, tudo o que posso fazer é fugir dali.
Há uma teoria sobre a alma que diz que alma há só uma e que vive em todos os objectos dela, num de cada vez de cada existência do Universo. Pobre desta minha alma cansada! Já não me bastaria a tormenta de viver uma vez, teria de viver todas? Teria de ser alma do mundo todo? Dos detestáveis, dos adorados, teria de ter todas as ideias e todas as opiniões, teria de viver milhares de milhões de vezes e ainda mais que essas e só contei ainda com as dos humanos, então imagine-se ter de viver por tudo o que há e o que vai haver. Desejo fervorosamente que esta teoria esteja errada. Estou farta da consciência de existir e já me basta esta.
Outra em que o princípio do Universo é também o fim, o fim é o princípio, quando se dá o fim, dá-se outro princípio, o mesmo, então repete-se tudo como da vez anterior até ao fim, que será como o princípio, assim, a vida em ciclos, o mundo em círculos, sem um fim à vista, nem mesmo um verdadeiro início, só a repetição e a inevitável certeza de tudo vir a ser e acontecer como já foi e já aconteceu. Esta teoria também é cruel, diz-me que já por infinitas vezes vivi esta vida e senti isto e que por infinitas vezes hei-de viver, repetir os mesmos erros, sentir as mesmas desgraças, enganar-me e enganar os outros, hei-de escrever os mesmos textos e os mesmos trechos. Que esta consciência que agora que guia, este sentir que existo, não se prolongue por tais caminhos, que sejam ocos de alma, pois eu não suporto mais viver, outra vez, depois da morte, ao menos que ela seja verdadeiro descanso."
16.11.2009
Hoje é um dia e não sei o que fazer com ele. Hoje foi o dia e a tarde naturais, mas a noite é incerta. A noite é incerta e o choro há-de ser tremendo.
Porque houve algo que nunca te disse, querida, e essa algo foi essencial e faltou nas minhas palavras. E se tu foste, Joanna, lamento não to ter dito.
Escrevo-te e escrevo-te e garanto que lamento. Amo-te, Joanna. Amo-te, amo-te, minha querida amiga, minha maior amiga. Amo-te e lamento não to ter dito mais cedo. Amo-te como minha amiga e como minha filha. Oh, Joanna. :(
17.11.2009
Um beijo e um abraço, borboleta e Joanninha.
Menina voadora que ousava voar com o céu.
Boa viagem, minha querida.
-
Alma minha, não te apoquentes pelo meu choro, porque sei que foi uma escolha tua. Sei que o teu sofrimento agora cessou. Mas não posso deixar de verter lágrimas e lágrimas, porque são lágrimas egoístas, lágrimas de te perder, para sempre.
Lágrimas do que é nosso e do que não é e não merecia ter-te pedido que não o fizesses.
-
Oh, Joanna :( Se ao menos tivesses contado, fazíamos também um jantar de eterna despedida, uma festa, o que quisesses. Dar-te-ia o último abraço e o último beijo e o último sorriso e dir-te-ia "amo-te" que foi a palavra que faltou toda a vida.
-
Oh, Joanna :( e estas palavras são tão inúteis e sinto-me tão inútil e tão excessiva no mundo.
Oh, Sophia, minha borboleta encantada.
Roubaram tão cedo a tua inocência e "longe vai o tempo", não é certo?
Oh, minha querida, eu já não sei nada. E eu já nada sei.
-
Por que nos mandam chorar em vez de celebrar e aceitar a morte? Por que temos de chorar nas despedidas? Eu não quero chorar, quero celebrar a paz de alma com que ela descansa agora.
Quero celebrar este capítulo que chegou ao fim. Mas não, ensinaram-me a chorar perante a morte dos meus amigos, nem que essa morte tenha sido uma escolha - temos de chorar por nós, egoístas. Temos de chorar pelo que perdemos, nunca, nunca por eles. E, apesar das minhas lágrimas, te saúdo na tua viagem.
19.11.2009
~O Funeral da minha melhor amiga
Nem estava lá nem nada. Não era eu a ver nem era ela a enterrar.
Aquilo era tão contra o que nós fomos e não fez sentido.
E não chorei. Só que esta história é minha e todos os dias choro, mas não ali.
E depois, depois isto.
:( Oh, Joanna!
23.11.2009
Por alguma razão, não me cabe na cabeça que tenho 18 anos. 18, 18. Que sentido faz isso?
Por alguma razão, compreendo que ela foi embora e que não sofre mais, mas não compreendo que morreu. Como, como pode ter morrido?
Como Joanna Sophia pode ter cessado a sua existência, tanto tempo partilhada comigo.
Oh, Joanna, por que tu?, Joanna, de tantas pessoas más.
Ai, Joanna, esta vida não é para todos, mas eu queria-te nela (que egoísta) e não te queria a sofrer.
Que coisa, Joanna! Jo anna. Jo-So.
My loved and beloved immortal butterfly.
"Alma minha gentil que te partiste" dizia o poeta. E eu digo e choro, em choro e desespero.
Oh, Joanna! Mão queria que tivesse sido assim e porém foi e naquele dia tu morreste, não uma semana atrás, foi naquele maldito 24 de Março de 2008, mil vezes maldito o cabrão que te assassinou.
Assissassino-o eu.
* A Joanna foi assissassinada e não por mim. *
25.11.2009
~Parabéns, Joanna Sophia~
Lembro-me das manhãs em que não chegava atrasada e corria até mim, dando um beijinho de bons dias.
Oh, Joanna, que saudades
Parabéns para ti!
Lembro-me de que parávamos ao pé da farmácia e que aí nos despedíamos.
Lembro-me de que íamos com o Yuri buscar o sobrinho à pré-primária. Lembro-me de chorar.
Lembro-me de teres escrito.
Lembro-me de teres ficado feliz.
Oh, Joanna :(
26.11.2009
Coimbra.
Nesta mesma página escrevi, sem saber, estando a Joanna morta. Era 16 de Novembro e foi o último pedaço de escrita sóbria e menos mórbida.
Tenho saudades dela e, às vezes, a verdade passa-me uma rasteira e eu caio e espalho-me contra o chão. Desfigurada. Esvaindo-me em sangue. x.x
27.11.2009
Joanna e sinto a falta de uma abraço teu, de um sorriso ou de uma gargalhada, de um beijinho ou de um último olhar.
Joanna tenho saudades tuas...
Mas agora foste embora...
morreu, a borboleta :(
e um pedaço de mim com ela.
E um pouco do que escrevo.
10.12.2009
Vejo os olhos dela, o cabelo dela, a mochila, a bebida. A verdade é que nada apaga a memória dela, nem mudar de sítio. Mas sempre não tenho aqueles elementos que, na Lousã, garantidamente tenho.
12.12.2009
Não me lembro de tal, aliás, garanto: nunca chorei como ontem e hoje.
Foram as recordações de Mira.
Foram os meus pais que queriam que fosse.
Mas cada canto da casa está marcado.
A sala de jantar, a cozinha. Céus, a varanda. A sala, a tv, a cama de rede, a casa de banho.
Os colchões do quarto pequeno.
O meu quarto.
O chão onde cantei, a janela por onde espreitámos, a mesa onde tinha os cigarros, o armário, as velas em cima da cama. As noites e a partilha da música.
As manhãs solitárias.
Tudo isto me fez chorar, um choro sem fim, gritar, afogar-me na minha baba, sufocar com o próprio ranho.
Os olhos ardem de choro.
Eu não posso ter filhos. Jamais posso amar assim alguém.
E jamais posso sujeitá-los a tão instável mãe.
Ontem à noite deu o SeaWorld de Orlando. A Joanna queria ir. Ela sabia bem o que queria, não era como eu.
Eu desejo e mereço morrer.
Mas estas duas almas prendem-me a este sítio horrível e a esta vida.
E disso estou eu farta.
14.12.2009
Embarquei às 15h48 e o pensamento da Joanna tolda todos os outros.
15.12.2009
Sonhei que a Joanna estava viva e que eu, sabendo do que ia acontecer, a abraçava. Foi o primeiro sonho com ela viva.
[...]
Sonhar com ela foi mais uma das intermitências da morte
29.12.2009
Em vez de ar, respiro pensamentos dela. A toda a hora. A cada momento. Inspiro imagens, expiro dor.
~*~ ~*~
Para mais textos,
O Sorriso mais lindo do mundo http://escritosdispersos.blogspot.com/20
A vida (escrito antes de ela morrer) http://escritosdispersos.blogspot.com/20
A minha boneca preferida caiu (uma imagem que foi retirada) http://escritosdispersos.blogspot.com/20
Perguntas do depois http://escritosdispersos.blogspot.com/20
O Jardim Estranho da minha terra http://escritosdispersos.blogspot.com/20
Conto da noite http://escritosdispersos.blogspot.com/20
Outra vez para ti http://escritosdispersos.blogspot.com/20
Sophia http://escritosdispersos.blogspot.com/20
Encontraram mais neste blog http://arcosdojardim.blogs.sapo.pt/
Ainda tenho textos que jamais publiquei, mas estão na gaveta, não estão perdidos.
Tenham um bom dia e uma vida feliz*
Tarefa 3. Início de um livro sobre vampiros e humanos (que depois será desenvolvido por um escritor conhecido).
"No covil dos dragões"
-Como hei-de escrever algo sobre dragões, se não sei nada sobre dragões?
Depois, os meus olhos passaram outra vez pela tarefa.
Vampiros, não dragões. Bom, basta substituir, mas a pergunta mantém-se.
Bah, a ligação à net é para pesquisa, mas pesquisar sobre vampiros vai-me trazer demasiada ligação ao mundo.
Improvisarei, como sempre. A editora não se atreve a mandar-nos para fora deste asilo, por mais lixo que saia, porque sabe que, a qualquer momento, pode sair uma obra-prima. Uma obra-prima da qual podem aproveitar os lucros na íntegra. Basta encontrar alguém que queira fama da imagem, um nome, caso não seja apropriado e já está, não têm de pagar a mais ninguém.
A verdade é que, contas saldadas, eles ganham muito mais por nos manterem e sustentarem.
"No covil dos vampiros, nasceu um vampiro bebé."
Suponho que os vampiros possam procriar, será satisfatório incluir as minhas conclusões num relatório em anexo?
"O bebé não se desenvolve ao ritmo esperado. Os pais começam a preocupar-se.
Não corre, não fala, não brinca, limita-se a chorar e chorar e chorar. Tem rejeitado todo o sangue, já exprimentaram de todas as espécies conhecidas das redondezas e nenhuma parece ser adequada.
O vampiro bebé chora por tudo e por nada, um simples toque na pele suave fá-lo compor uma ária de soluços de dor e de tremores de frio…
Que estranho bebé este, diz a mamã vampiro.
De facto, de facto, salienta o papá vampiro.
No covil dos vampiros, reúne-se um conselho de vampiros mais velhos, mais sabedores e com maior experiência, de modo a tentar determinar o motivo para tal nunca antes visto sub-desenvolvimento.
Porém, não precisam sequer de trocar uma palavra, pois a solução veio ter com eles a partir da própria criatura.
O que é exactamente aquilo?, perguntou a mamã vampiro, de súbito preplexa.
O que exactamente é eu não sei, responde o papá vampiro, de súbito rígido.
Um dos velhos do conselho aproxima-se do estranho ser deitado que está na origem de tanta intriga.
De facto, já vi isto antes., comenta, enquanto observa, Sim, sim, de facto, de facto, confirma o que anteriormente dissera, por quatro vezes, de dois modos distintos, para reforçar a confirmação, provavelmente, mas quem seremos nós para questionar os recursos estilísticos empregues pelo velho vampiro.
De que se trata?, pergunta o papá, ansiosa e impacientemente, que é como quem diz, quer saber mas não sabe se, efectivamente, quer saber.
O bebé fez xixi, assim respondeu o velho astuto e sábio vampiro. Claro que também pode ter respondido "chichi", mas, pessoalmente, prefiro imaginar que "xixi" foi a palavra aplicada.
Mas como pode ter o bebé feito chichi, se é um vampiro?, perguntou a mãe, inundada em preocupação, de tal modo que disse "chichi".
De um simples modo, mas com consequências bem mais complexas, respondeu o sábio, Desconfio que este bebé seja uma cria humana.
O grito de horror que percorreu todos os recantos daquele covil, entoou até dentro da cabeça de quem ouvidos não tinha, de todos os animais, de todos os vampiros e, como é óbvio, do aclamado infante humanóide. Devido à sua alta sensibilidade e pouquíssima idade, os tímpanos sofreram uma lesão absolutamente irremediável. Se a cria continuasse a ouvir, seria de um modo extremamente deficiente, o mais provável é que apenas fossem gritos como este, daqueles gritos que mesmo os surdos são capazes de ouvir.
Merda de texto e de história, aqui a têm."
Agora, é enviar, mais uma tarefa magnificamente concluída.
Soberbo, como adoro o meu trabalho, como amo apodrecer neste armário de criatividade, como adoro sair até às montanhas a respirar o ar todo que haja no mundo, todo só para mim, ou não. Como adoro não ter de falar com ninguém, de cumprimentar quem quer que seja com mais de um sorriso. Como é lindo que ninguém me interrompa.
Pensar que há pessoas que não compreenderiam. Que acham que não posso ser feliz aqui. Claro que não, mas o que essas pessoas não sabem é que a felicidade jamais se encontra.
Por que estou cá, então?
Não procuro felicidade, procuro paz de alma, paz de alma depois disto que nos foi acontecer, olha. Só tenho pena que já cá não estejas para ver.
Tarefa 1. Escrever um livro de contos infantis.
Para escrever um conto infantil é preciso uma imaginação descomunal para ficar algo de jeito. Tem de, ao mesmo tempo, poder ser compreendido pelas crianças, ser original, ter um raio de uma mensagem perceptível e, ainda, tocar os mais crescidos. Lembro-me da simplicidade e brutalidade do conto "Os Sapatos Vermelhos", de Hans Christian Andersen, com que transmitia "não sejas vaidoso (ou vaidosa)", um texto que ainda hoje me toca.
Vejo-me às voltas para conseguir desencantar algo que me toque e que seja perceptível ao menos a um miúdo do 1º ciclo.
Escrever um conto infantil é atirar-me para fora de mim e depois regressar a escrever. Essencialmente, é ter a ideia certa. Largar-me deste ódio pleno à sociedade para contar algo aos futuros objectos deste meu ódio ou futuros companheiros deste asilo.
Escrever um conto infantil não é fazer uma música pateta. É para crianças, mas não tanto, é um conto sem imagens. E assim preciso que as palavras falem mais alto que as imagens e que sejam o sustento do gosto dos pequenos.
Vou ter de me afastar das violações, da pedofilia, do suicídio, das desgraças mundiais, da morte em geral. Vou ter de ser simples, directa e universal.
Nada de papões, princesas nem bruxas más.
Quem se recorda da bruxa da Branca de Neve?
"A inveja, vaidade e ganância levar-te-ão a caíres de um penhasco", quando, na verdade, os infantes apenas desejam a sua morte, por ser a má da fita. Se queremos passar uma moral, temos de fazer com que a criança se identifique com a personagem castigada.
"O que aconteceu à menina que queria exibir os sapatos vermelhos? Colaram-se-lhe aos pés e o lenhador teve de os cortar." Brutal, simples. E as crianças são totalmente a personagem.
A história do Capuchinho Vermelho até que seria uma boa metáfora para os violadores, não metesse o caçador. É que as crianças lêem as metáforas literalmente. Assim, que resultado obtemos? Lobos - animais malvados. caçadores - pessoas bondosas e salvadoras. Conclusão: fugir ou matar os lobos, confiar nos adultos.
Oh, merda.
Talvez seja um tema fixe, a Natureza. Muito mais que o respeito, contos demasiado moralistas têm tendência a ficar ranhosos, depois os miúdos desligam. O tema seria, sim, o amor à Natureza que, por si só, já inclui o respeito.
Bonito, estou a seguir por um bom caminho.
Amor às árvores, às aranhas, às cobras, aos lobos. A criança que aprenda a admirar o pequeno ser alado, ao invés de o esborrachar contra a mesa. A criança que veja cada morte como um assassínio. Que doa mesmo, cada vez que veja um galho a ser partido.
Agora o conto. O amor não se incute com moralismos. Moralismo é atirar-lhe com uma restrição. Proíbo-te de fazeres mal a esta árvore. Meter-lhes medo com um castigo imaginário no caso de desobediência. Lições dessas são facilmente esquecidas, de moralismo estão eles enterrados até ao pescoço, mal conseguem respirar.
Tem de ser uma história em que os animais e as plantas não falem, também, a menos que necessário. É preciso amor ao que são, não àquilo que desejariam ser.
Pergunto-me como me hei-de sair. Provavelmente não à primeira, este é um exercício de escrita totalmente diferente.
E ainda há muito mais que se lhe diga acerca de contos infantis.
A surpresa, por exemplo.
Isto a modos que farta.
Uma pessoa cansa de viver com as outras.
Tanto para mais quando nos morreu a única pessoa com quem gostávamos de estar.
Olha, bah.
E assim, peguei na minha editora imaginária e pedi-lhes que me fizessem o favor de me aprisionar nalgum lado longe desta gente que me farta os miolos.
Fiz um acordo.
Fizemos.
Eles que me sustentem, eu a eles.
O bonito disto é que vim a descobrir que já tinham mais nesta situação e que arranjaram uma situação bem jeitosinha. Assim a modos que nos enviaram para uma casinha ao pé de umas montanhas e um lago, num sítio frio, de onde mais nada se vê de origem humana.
Felicidade a minha.
Dentro dessa casinha, vivemos em armários. Cada armário tem gavetas para comida e outras para roupa, tem uma cama no chão e luz. Tipo cacifos daqueles altos, é engraçado como tudo.
Uma grande idiotice pegada, mas a verdade é que eu gosto. Tal como os outros escritores como eu. Partilhamos as casas de banho, só.
O que damos à editora é escritos. Andamos de relações cortadas com a sociedade, por isso mandamos muito lixo e muitas opiniões. O que acontece é que não vai aparecer o nosso nome quando for publicado.
Mas que voltas estou a dar?
Bom, eles dão-nos tarefas. Pode ser escrever livros, pode ser continuar histórias, pode ser pegar na essência de um autor e escrever um livro que pudesse ser dele, talvez pegar numa figura pública e escrever um livro como se tivesse sido ela. Nenhum de nós se importa realmente de não ser reconhecido lá fora. As pessoas são tão estúpidas quanto as suas opiniões e, no fundo, limitam-se a odiar-nos. Porque nós não somos como elas querem. Assim, estamos longe do mundo delas e elas do nosso. Todos felizes.
Aparentemente.
Yeey.
Fazemos as transferências todas pela net, é muito mais divertido. Raramente vêm cá pessoas de fora. Somos um pequeno asilo de esquizofrénicos sem medicamentos.