Posso escrever livros sobre o que quiser, se me apetecer. Depois a editora é que escolhe se é bom para levar às prateleiras ou não. Aí está um desses começos:
"Fica aqui desde já dito que nada direi nas páginas seguintes, é o melhor assunto para se discorrer, o nada, porque podemos dizer tudo, assim farei, será este o livro: páginas e páginas brancas que o leitor não saberá ler, mas o que importa não é tanto ler, leitor, é mais o que lhe dizem essas páginas brancas. Este livro não é dos que se lê, é o que inicia as sensações e depois é cada um por si, por isso que quanto tanto fazia que todo o resto estivesse em branco, se o leitor soubesse sentir, não precisava da minha sugestão para o ir guiando, talvez já nem escute o que lhe digo, talvez estas palavras sejam já música de fundo dos seus pensamentos, um cenário que está lá, mas é o leitor que nele não está, mas eu, enfim, tenho de seguir por todo o discurso, quanto trabalho me poupava poder compor o livro todo em branco, todo em páginas brancas, que são tormenta, garanto que são, e também surpresa e depois toda a torrente de sensações, basta experimentar, comprar um livro com defeito de impressão, acontece de tempos a tempos, nos dias que correm já os livros não tem o cuidado e carinho humano de outrora, nem quando são impressos, nem colados, nem quando são transportados, nem quando os colocam na prateleira, não, o único a dar carinho a um livro em particular é o leitor que pega nele com curiosa atenção, ou talvez com pretexto de continuar a pensar, em busca de uma confirmação, de uma dada música de fundo que o ajude nessa viagem de reflexões. Não é preciso comprar para dar um pouco de atenção particular a um livro, basta tê-lo na mão e na mente, mas um livro nem precisa de nada disto, nós é que precisamos deles para assegurarmos que tudo continua e nada se perde, um livro é facilmente repetido e repetido, aliás, é isso que se faz na impressão, repetir um livro até à exaustão.
Este livro merecia ter as páginas todas em branco, basta-lhe uma frase para fazer sentido, o resto é só repetido e mais dizer do mesmo, é um pensamento que a nenhures conduz, a este livro bastava-lhe essa frase que bem podia ser o título, e todas as restantes páginas em branco, para fazer viajar o leitor, enfim, já o disse, talvez até fosse do interesse do indivíduo começar a escrever sobre branco e aí ainda se confirmaria mais esta ansiedade do branco a exigir pensamento, do vazio que nos faz encher páginas.
Enquanto escrevo, corre o mundo à volta de si, ele indiferente a mim e eu a ele. Não gosto de princípios, nem de meios nem de fins. Os princípios porque são a razão da desgraça. Sem princípio, não haveria sofrimento nem felicidade, não haveria existência e ninguém se teria de preocupar. O princípio torna-se inevitável quando a existência se mostra evidente, pois aí já nós estamos no meio, à espera do fim. Sem princípio, nem meio nem fim haveria, mas eu já comecei este livro e já vou eu no meio, mas o princípio foi brusco, para quase se não notar, não lhe dêmos muito ênfase, senão ele convence-se de que é alguém. Também fim não terá, porque o nada é vivo para sempre, menos que o nada só o que não existe, o fim deste livro será quando deixarem de existirem páginas em branco. Escrevo-te conforme a minha consciência vai ditando e ela parará de me atirar com novas frases só quando eu morrer. Se o livro não visse luz do dia para além da minha, morrerá comigo, senão, morrerá com o leitor atento e preocupado.
Sentir que vivo faz-me as maiores confusões. Cada respiração, gesto, pulsar é como se fosse contra alguma regra fundamental do Universo. Existir deixa-me desconfortável, como uma cadeira desconfortável. E pedem-me que continue. Exigem-mo. Dizem que ainda vivi a menos, que tenho muito pela frente. Mas do pouco que vivi já me chega para fartar, a cada segundo crio e a cada momento me exigem mais, a cada segundo invento, mais um novo princípio, um novo começo. Eu quero parar, cessar este mau estar para sempre, nunca mais voltar, porém, dizem-me que me cale e que continue sem reclamar, porque tenho tudo para ser uma pessoa feliz. Quem lhes disse que o quero ser?
A felicidade está sobrevalorizada, tal como a sua busca. Coloca-se como o objectivo principal de muitos. Desespero quando penso no modo como pensam na felicidade. É triste ver pessoas por aí tão enganadas consigo mesmas, procurando naquilo que lhes dizem que trará algum bem. Em primeiro, é uma cruzada perdida e condenada desde que surgiu: a felicidade não existe, o que há é alegria, que, por sua vez, não é um posto nem um porto, é um esgar momentâneo de que só nos apercebemos quando passou.
De dia para dia me repetem que o objectivo é manter a continuidade da espécie. De dia para dia me fazem questões estranhas, se gosto de homens ou de mulheres ou de ambos e eu fico sem resposta, porque gosto de todos e não gosto de nenhum, amo-os mas não me atraem. Se se pudesse fazer um terceiro género que não o masculino nem o feminino, um que não se encaixasse nos estereótipos e que não tivesse papel na reprodução, seria a esse que eu pertenceria, decerto, pois não me sinto parte de nenhum destes conceitos que distinguem. Sinto-me sendo um ser pensador e um ser consciente de si mesmo, nada mais. Que me importam essas distracções?
Para mim são abomináveis, tanto que o maior mercado de prazer é o maior mercado de sofrimento. Quantas crianças abusadas neste mundo, até lhes perdemos a conta, só quem sofre sabe. E criticam-me por ser como sou.
Amo quer mulheres quer homens, pelo que são, não pelo género ou aspecto. Isso são pormenores que pouco me importam.
Passo os fins-de-semana em desespero. Esta vida que levo repete-se de um modo tão igual de dia para dia que os grandes acontecimentos abrem feridas que nunca mais cessam. Sempre me custou fazer amigos, tanto mais quando são tão diferentes de mim, gostos tão diferentes, ideias e ideais tão distintos, sem um mínimo sentido de moral nem sequer um esforço de estarem atentos ao mundo, preocupando-se com a própria esfera e o resto que vá passear. Sou sempre alguém estranho nos grupos, comporto-me de forma esquisita. Não me talhei para fazer parte de uma multidão, mas é nela que me mandam viver toda a parte útil do meu dia. Chego a casa e a caneta espreita ao lado, como que suplicante, mas a mão preguiçosa não se encaminha até ela. Aliás, existem todos aqueles livros de estudo que me lembram de que me dizem que os estudos e o curso são muito mais importantes que as palavras que posso escrever a qualquer lugar. Os professores vão deambulando nas suas matérias, os colegas acompanhando, eu sempre ao canto, ao fundo da sala, distante, os pensamentos virados para o caderno e quem sabe uma nova ideia que começa a esboçar-se, outras vezes apenas um pensamento que merecia registo, tomo nota como que a um apontamento, fica o professor contente por me ver a tirar notas, ficam contentes os meus colegas por me verem a agir normalmente, mas pudessem eles saber de quem realmente sou. Pergunto-me se fugiriam, se me internariam.
O manicómio é um lugar onde das pessoas mais lúcidas do mundo se encontram. Lúcidas, criativas, apelidadas e etiquetadas como lunáticos, são um povo próprio sem oprimidos, onde cada um é ele próprio, magia desta existência. Será, decerto, um dos lugares mais encantados do mundo, onde os incompreendidos da sociedade, os que se atrevem a pensar mais além se debruçam sobre os próprios pensamentos, não querendo saber de ninguém mais, sem ninguém que os aborreça ou distraia ou aponte o dedo ou mande fazer tarefas confusas como ir às compras.
Ir às compras é um verdadeiro assombro, um pesadelo. Olho para a prateleira que me devolve o olhar inquisidor. É enorme, comparada comigo. Tem uma data de produtos repetidos em massa, esmagando-me só pela sua presença. Hesitante, estendo o braço, apoderando-me de algo que não é meu, colocando numa cesta que não me pertence, olho para os corredores infinitos como se fosse para o fundo de um poço, falta-me uma pedra para atirar ao fundo. Tenho de obedecer a um grande conjunto de regras estranhas que todos parecem ter ensaiado, menos eu, bolas, esqueceram-se de me entregar o guião, vim para esta peça sem saber as minhas deixas, agora o melhor é meter-me atrás de alguém, fazer como eles fazem, pousar as coisas no tapete dos solavancos, alguém que me faz perguntas absurdas, troco uns míseros discos de metal ou pedaços de papel por tudo o que levo para casa e ainda me ensacam tudo em plásticos inúteis, tanto quanto o papelinho alinhado cheio de informações que ninguém lê que entregam como conclusão deste processo macabro. Consumir e comprar é penoso. Saí do mercado, mas não do centro comercial, ou seja, ainda tenho de enfrentar outros perigos. As luzes encandeiam-me, a multidão aperta-me, os nomes das lojas fitam-me, são como que uma sentença que me reprova por a ignorar, são como um dedo surgindo, julgando-se superior, e esmagando o pobre insecto que sou eu. É tudo demasiado insuportável, tudo o que posso fazer é fugir dali.
Há uma teoria sobre a alma que diz que alma há só uma e que vive em todos os objectos dela, num de cada vez de cada existência do Universo. Pobre desta minha alma cansada! Já não me bastaria a tormenta de viver uma vez, teria de viver todas? Teria de ser alma do mundo todo? Dos detestáveis, dos adorados, teria de ter todas as ideias e todas as opiniões, teria de viver milhares de milhões de vezes e ainda mais que essas e só contei ainda com as dos humanos, então imagine-se ter de viver por tudo o que há e o que vai haver. Desejo fervorosamente que esta teoria esteja errada. Estou farta da consciência de existir e já me basta esta.
Outra em que o princípio do Universo é também o fim, o fim é o princípio, quando se dá o fim, dá-se outro princípio, o mesmo, então repete-se tudo como da vez anterior até ao fim, que será como o princípio, assim, a vida em ciclos, o mundo em círculos, sem um fim à vista, nem mesmo um verdadeiro início, só a repetição e a inevitável certeza de tudo vir a ser e acontecer como já foi e já aconteceu. Esta teoria também é cruel, diz-me que já por infinitas vezes vivi esta vida e senti isto e que por infinitas vezes hei-de viver, repetir os mesmos erros, sentir as mesmas desgraças, enganar-me e enganar os outros, hei-de escrever os mesmos textos e os mesmos trechos. Que esta consciência que agora que guia, este sentir que existo, não se prolongue por tais caminhos, que sejam ocos de alma, pois eu não suporto mais viver, outra vez, depois da morte, ao menos que ela seja verdadeiro descanso."